O tempo troca a roupa do mundo

Ontem amanheci com pensamentos de infância, quando minha mãe costurava e reformava minhas roupas com o bichinho da criatividade que assumi, um dia.  Foram anos em que reformar roupas não tinha nem o brilho e nem o conceito de sustentabilidade de hoje. Pois é, como tudo passa e tudo muda {é a roda do mundo girando}, o conceito de transformação do guarda roupas tomou outra roupagem.
 
Diante das pilhas de roupas,  muitas histórias se formaram e dentro delas, cada peça ocupou um lugar distinto e único em cada pessoa que a vestiu um dia.
 
Foi assim que comecei a separá-las. Lembrando dos lugares por onde estiveram e das memórias que foram capazes de criar. Fui transportada de festas de aniversários para viagens memoráveis!
 
Quanto mais eu remexia, mais e mais fui me conectando com minha verdade atual. Nas pilhas encontrei peças que não me representam mais. São os significados que damos para nossas escolhas.
 
O que faz sentido
Como num jogo de quebra cabeças fui separando as peças {que deixariam de existir},  por cores e combinações de tecidos, para serem remodeladas em novos espaços do corpo.  Momento de quebra e de ruptura, que se mistura ao momento de resgate e integração do que fez sentido.  
 
Fui de uma blusa rendada de fio verde água presenteada pela minha mãe, até o vestido tubinho marro escuro que ganhei de aniversário de meu marido. Só aí, essas duas peças me fizeram lembrar de pessoas especiais. Os detalhes para a pala retirei de uma blusa “cor sim cor não” que me renderam  lembranças do passeio em família, para a cidade de Paranaguá, no litoral paranaense. Ai, ai…
 
 
Em tempo
 “O tempo não para. Passa ligeiro […]
– Passa mais depressa que voo de passarinho?
– Muito, muito mais. Passarinho pousa, repousa, dorme, torna a voar e volta ao ninho. O tempo não tem ninho. Ele está sempre acordado, viajando e vigiando tudo. Sabemos que ele existe porque modifica todas as coisas.
O tempo troca a roupa do mundo.”
(Bartolomeu Campos de Queiros, escritor brasileiro, 1944/2012). 
roupa memória afetiva
blusão construído com a junção de partes de três roupas

Denise Padilha

Sou Denise Padilha, formada em Artes Visuais, especialista em Cultura Contemporânea e Marketing, criadora e proprietária da marca denise-se além da moda sustentável, que propõe novos significados, a partir da desconstrução e reconstrução de peças do vestuário, com resgate de memórias surgidas dos contextos que as peças estiveram presentes e das pessoas que as vestiram um dia.